EDUCAÇÃO
INFANTIL
Universalizar, até
2016, a Educação Infantil na pré-escola para as crianças de 4 a 5 anos de idade
e ampliar a oferta de Educação Infantil em Creches de forma a atender, no
mínimo, 50% das crianças de até 3 anos até o final da vigência deste PNE.
Contexto: Com 88% das crianças de 4 e 5
anos atendidas, a meta de universalização da Pré-escola até 2016 não parece
distante para o País. Mas é preciso ressaltar que os 12% restantes significam
quase 700 mil crianças e que as desigualdades regionais são marcantes. Além
disso, o foco não pode se restringir ao atendimento, sem um olhar especial para
a qualidade do ensino.
Já na etapa de 0
a 3 anos, o País patina de forma recorrente. O Plano Nacional de Educação de
2001-2010 já estabelecia o atendimento de 50% até 2005, meta solenemente
descumprida e agora postergada para o final da vigência do plano atual. Ao
déficit de vagas, calculado em cerca de 2,5 milhões, soma-se o desafio de
levantar dados mais precisos, que permitam planejar detalhadamente a expansão
do atendimento.
Os desafios da universalização da
pré-escola até 2016
Por Fundação
Maria Cecília Souto Vidigal em 30/04/2014
Diante da iminente
votação do Plano Nacional de Educação pelo Congresso Nacional, é importante
refletir sobre suas propostas e a possibilidade real de executá-las, para que o
documento, uma vez aprovado, não seja apenas uma declaração de intenções com
poucas implicações práticas nas políticas implantadas – como é nossa tradição
em planos educacionais e como aconteceu com o último deles, que vigorou até
2010. A começar pela primeira meta do plano, que se refere à universalização do
atendimento de crianças de 4 e 5 anos em escolas de educação infantil: teremos
condições, de fato, de colocar todas as crianças brasileiras dessa faixa etária
em escolas até 2016?
A simples edição da
norma legal não fará isso acontecer, se não vier acompanhada de um conjunto de
políticas públicas que compreenda a situação dentro da diversidade brasileira e
que proponha ações concretas de financiamento para dar conta da demanda
existente e da elaboração de um padrão de qualidade para todo o país.
Vejamos os dados,
usando como referência o levantamento sobre matrícula na pré-escola (crianças
de 4 e 5 anos) no Brasil, realizado pelo movimento “Todos pela Educação”, com
base na Pesquisa Nacional por Amostras Domiciliares – PNAD de 2012. A
princípio, os dados apresentados não causam grande impacto, uma vez que a meta
parece próxima de ser atingida: – hoje já atendemos 82% das crianças. No
entanto, os 18% faltantes somam mais de 1 milhão de crianças dessa faixa etária
que estão fora da escola hoje, o que certamente não é um número desprezível.
Isto significa que
temos ainda alguns desafios, que se referem essencialmente a quatro aspectos: a
distribuição espacial da demanda no território nacional, o perfil econômico da
população a ser atendida, as fontes de financiamento e a definição de um padrão
de qualidade para o país.
Em primeiro lugar, o
atendimento na pré-escola não acontece de forma homogênea no território:
enquanto nas regiões Nordeste e Sudeste ele é de 87,5% e 85,6%,
respectivamente, nas regiões Norte e Centro-Oeste é de 70% e 73,9%. Isso
significa que, em determinadas regiões, a defasagem no atendimento é muito
maior, o que exigirá atenção redobrada e investimentos da mesma ordem de
grandeza.
Essa heterogeneidade no
atendimento acontece também dentro das próprias regiões, havendo grandes
disparidades entre os estados e os municípios de uma mesma região, e também
entre suas áreas urbanas e rurais (a cobertura da zona rural da região Norte,
por exemplo, é de apenas 58,3%).
O segundo aspecto se
refere à discrepância na renda familiar daquelas que utilizam o serviço da
pré-escola. Segundo o levantamento mencionado, “os dados de acesso em relação à
situação econômica revelam que o menor percentual de crianças de 4 e 5 anos
frequentando escola está no quartil mais pobre do país. Essa faixa de renda
representa mais de 60% do total de crianças ainda fora da escola” .
Surge daí, a terceira
questão. Diante dos dados, fica claro que os municípios constitucionalmente
responsáveis pelo atendimento da educação infantil não darão conta da tarefa,
sem que se estabeleça um regime de colaboração com os governos estaduais e
federal.
Essa expansão no
atendimento não cabe nos orçamentos municipais, que já estão sobrecarregados
pela demanda por creches (é bom lembrar que na meta 1 do PNE também está a
oferta de vagas para 50% das crianças de 0 a 3 anos em creches) e com a
obrigação de melhorar a qualidade do ensino fundamental. Os recursos do FUNDEB
não serão suficientes, assim como não será suficiente a aplicação de 10% do PIB
nacional em educação pública, proposta no Plano Nacional de Educação –
considerando que ela seja aprovada. Primeiro, porque esses recursos não serão liberados
imediatamente (os 10% serão atingidos gradativamente) e, depois, porque o pacto
federativo não é justo na distribuição desses recursos e precisa ser revisto.
A possibilidade de
cooperação entre os entes federados tem dado alguns sinais positivos, por meio
de programas de financiamento para construção de unidades, mas ainda são
tímidos diante do tamanho do problema. As notícias sobre o que está acontecendo
efetivamente também não são muito animadoras – o exemplo das creches, que o
Estado de São Paulo conseguiu entregar somente 24 das 1.000 unidades previstas,
é um sintoma. E o dinheiro está disponibilizado pelo Estado.
O mesmo se repete no
governo federal: das 6.000 creches prometidas até 2014, apenas 23% foram
concluídas, embora também existam os recursos. Percebe-se, portanto, que a
questão não é somente financeira. O prefeito de São Paulo declarou recentemente
que não consegue ampliar seu atendimento nessa área, porque não encontra
terrenos disponíveis para as construções. A questão é complexa e não comporta
soluções simples.
É importante lembrar
que a ampliação desse atendimento aumentará significativamente as despesas de
custeio dos serviços, e as linhas de apoio para manutenção dessas unidades, que
estão sendo criadas pelos governos estaduais e federal, ainda são muito
tímidas, apesar de avanços nas políticas públicas como o Proinfância e o
Proinfantil.
Por último, e não menos
importante, cabe lembrar ainda, que mesmo atendendo toda a demanda por vagas em
2016, a questão da educação infantil não estará totalmente equacionada. “Fúlvia
Rosemberg (1999) já demonstrava, a partir da análise de uma série histórica com
o registro da evolução das matrículas em educação infantil e classes de
alfabetização no período de 1986 a 1996, que maiores taxas de cobertura, por si
só, não significam necessariamente uma democratização da educação. Segundo a
autora, os processos de expansão de vagas no país foram acompanhados por
realocações, no sistema educacional, de segmentos sociais excluídos, de forma
que crianças negras, pobres e moradoras de regiões subdesenvolvidas tendem a
estar mais representadas em programas de baixo custo e suas professoras são, na
maior parte dos casos, menos qualificadas”.
Em síntese, ao grande
desafio quantitativo deve ser acrescida a necessidade de definir um padrão
nacional de qualidade, que torne o atendimento a todas as crianças brasileiras
mais equitativo. Os dados disponíveis sobre a qualidade das nossas escolas de
educação infantil mostram que temos ainda um longo caminho a percorrer. Quer
dizer, não basta construir escolas infantis se não existirem recursos para
mantê-las, nem um padrão de qualidade nacional definido que chegue a todos os
municípios e todas as crianças do país.
Por fim, a
obrigatoriedade da frequência à escola para todas as crianças de 4 e 5 anos
exigirá uma ação integrada por parte dos órgãos públicos. Haverá a necessidade
de uma parceria com as áreas da Educação, Assistência Social e da Saúde,
apoiadas pelo Sistema de Justiça, na busca das crianças dessa faixa etária que
não estiverem matriculadas nas pré-escolas em 2016. Ou seja, a tarefa é grande
e há muito trabalho pela frente.
Referência
Fundação
Maria Cecília Souto Vidigal. Metas do PNE, 2014. Disponível em: <http://www.observatoriodopne.org.br/metas-pne>.
Acesso em: 26 de maio de 2015 .